Augusto Nardes diz que a falta de coordenação entre órgãos públicos prejudica a saúde, a educação, a Previdência e programas sociais. Para ele, o país precisa de um centro de governo para monitorar políticas públicas e antecipar riscos
O Ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) desde 2005 e ex-presidente da Corte entre 2013 e 2014, Augusto Nardes tornou-se uma das principais referências nacionais na defesa da governança pública como instrumento para aumentar a eficiência do Estado. Ao longo de sua trajetória, liderou a implantação de auditorias operacionais voltadas à prevenção de falhas administrativas e à avaliação dos resultados das políticas públicas.
Em entrevista ao Correio, Nardes faz um diagnóstico crítico da administração pública brasileira. Segundo ele, a falta de coordenação entre ministérios, órgãos e diferentes níveis de governo impede que os recursos públicos cheguem de forma eficiente à população e compromete a execução de programas considerados essenciais.
O ministro cita auditorias recentes do TCU que apontam falhas na atenção primária à saúde, dificuldades no monitoramento de beneficiários do Bolsa Família, problemas na execução de recursos públicos e gargalos históricos na gestão de serviços públicos. Para ele, a ausência de monitoramento e de integração de dados impede que o Estado identifique riscos e corrija problemas antes que eles se agravem.
Nardes também aborda o déficit da Previdência, a situação da saúde pública em Brasília, os desafios da governança financeira em casos como os do BRB e do Banco Master, além das pressões enfrentadas durante sua atuação em processos de grande repercussão nacional, como o julgamento das chamadas pedaladas fiscais da ex-presidente Dilma Rousseff, que culminou com o impeachment, em 2016.
Auditorias recentes do TCU apontam risco de colapso financeiro na Atenção Primária à Saúde. O SUS está conseguindo sobreviver mais pela dedicação dos profissionais do que pela eficiência da gestão pública?
Há uma dificuldade imensa. Uma auditoria recente revelou que, por falta de governança, o Distrito Federal executou apenas 58% dos recursos disponíveis. Em nível nacional, os recursos não chegam à ponta. O problema é a falta de transversalidade, ou seja, a incapacidade de organizar o Estado para que o dinheiro público se transforme em ações efetivas de saúde preventiva nos municípios. Os números são alarmantes. O TCU identificou que 5 milhões de jovens não são localizados no Brasil e que 7,3 milhões de crianças beneficiárias do Bolsa Família estão sem acompanhamento de saúde. Estamos diante de um cenário sem controle, em que as metas nacionais são cumpridas no papel, mas a realidade local é marcada pelo abandono.
Fonte: Correio Braziliense



