Crise nas empresas avançou 57% desde o 1° trimestre de 2023; motivos incluem juros elevados e mais acesso ao instrumento, mas o Ministério Fazenda quer que o cidadão veja outra outra: narrativa
O Brasil bateu um novo recorde de empresas em recuperação judicial, com 6.341 casos registrados até junho, mostram dados do monitor RGF-BizDoc. O cenário de endividamento também alcançou grandes companhias como Casas Bahia, Habib’s e a varejista Marabraz, que, em agosto, recorreram à Justiça para renegociar dívidas que superam R$ 10 milhões. O cenário de tensão, que vem sendo construído há anos, foi favorecido, principalmente, pelo crescimento da inadimplência entre os empresários e os juros elevados, entendem especialistas.
Além disso, mais de 81% das famílias estão endividadas (o desenrola II fracassou), o poder de compra do trabalhador com os preços altos afeta o consumo e os empregos criados são de baixa renda.
Em ano eleitoral, a situação econômica do país ganha peso e destaque nas projeções para o pleito, trazendo impacto não só nas decisões políticas, mas também no mercado financeiro e na percepção da população e de investidores estrangeiros.
Para o economista Hugo Garbe, o cenário, que não pode ser explicado por apenas um fator, é resultado de empresas que chegaram a esse momento com uma estrutura financeira mais frágil, justamente em um período em que o dinheiro ficou mais caro e o crédito, mais seletivo.
“Recuperação judicial não é um problema que normalmente nasce de um mês para o outro. Muitas vezes é o ponto final de uma deterioração que começou há bastante tempo. Eu acho que o principal fator é a combinação de juros ainda muito altos com uma oferta de crédito mais restrita. Tem ainda um segundo efeito, que é a inadimplência”, comenta.
No Brasil, o número de empresas inadimplentes cresce a cada ano. Os últimos dados atualizados, referentes ao mês de junho, mostram que ao menos 9,1 milhões de organizações estavam inadimplentes no país. Em média, 7 contas foram atrasadas, o que rendeu uma dívida média de R$ 25.508,96 por CNPJ.
A recuperação judicial é uma forma de evitar que as empresas entrem em falência. A medida permite que a companhia continue funcionando a partir de um pedido feito à Justiça
Mais acesso à recuperação judicial
Comparado com o primeiro trimestre de 2023, quando o número de empresas em crise era de 4.014, o país sofreu aumento de 57% nos pedidos de auxílio na justiça.
A economista Deborah Bizarria explica que a alta das recuperações judiciais não deve ser atribuída apenas à tensão do cenário econômico, mas também ao maior acesso que as empresas têm a esse instrumento.
Ela dá como exemplo o setor do agronegócio, que conquistou junto ao STJ (Supremo Tribunal de Justiça) a concessão de pedidos de crise para empresários do setor que não atendem a todos os requisitos legais.
O segmento registrou 474 pedidos no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% em um ano.
“Houve queda entre produtores (pessoas físicas) e aumento concentrado entre pessoas jurídicas, segundo a Serasa. Portanto, parte do crescimento pode refletir maior dificuldade econômica e parte, maior acesso à recuperação judicial”, explica.
Fonte: R7



