Quase 40 internos em condições consideradas degradantes foram resgatados nesta quarta
As investigações da Polícia Civil sobre a clínica de reabilitação Terra Santa Videira, em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, apontam que a morte de Iago Marques Formiga pode ter sido uma “queima de arquivo“. A informação foi divulgada pelo delegado Marcos Laranjeira, titular da 20ª DT (Delegacia Territorial) de Candeias, ao detalhar o andamento da Operação Terra Santa.
Segundo o delegado, a suspeita surgiu durante as investigações que apuram as mortes de Iago e Geovane Santana Lopes, ambos ex-internos da unidade.
“Nós colhemos depoimentos nesse sentido de que o Iago, inconformado com os maus tratos, com a tortura feita na clínica contra seu amigo, foi vítima de queima de arquivo, porque havia uma intenção dele relatar o fato às autoridades policiais”, afirmou.
Geovane sofreu queimaduras de terceiro grau dentro da clínica, chegou a ser socorrido e morreu posteriormente no Hospital Geral do Estado (HGE). Já Iago, que também havia sido interno da unidade e trabalhava como motorista da clínica, foi encontrado morto dias após desaparecer.
Operação resgatou 39 internos
O delegado detalhou que a Operação Terra Santa cumpriu quatro mandados de busca e apreensão: um na residência do proprietário da clínica, Moisés, no bairro do Cabula, em Salvador; dois em Monte Gordo — na clínica filial e na casa do gerente Charles Vinícius —; e outro na unidade de Candeias.
Durante a ação na clínica, os policiais encontraram 39 internos em condições consideradas degradantes.
“Quando nós fizemos a incursão na clínica de Candeias, nos deparamos com 39 internos que estavam em situação degradante, desumana, dentro de um cômodo sem sanitário, confinados. Fizemos o rompimento do cadeado, porque eles estavam segregados, presos dentro do cômodo”, disse.
Para onde foram os internos?
Segundo o delegado, todos os pacientes pediram socorro e relataram que sofriam maus-tratos e torturas frequentes.
“Nós conduzimos eles e os demais internos para a delegacia, fizemos as formalizações legais e caminhamos alguns internos que estavam com lesões recentes ao Departamento de Polícia Técnica. Foi feito o corpo de delito, o exame de corpo de delito. Contactamos com todos os familiares. Entregamos a maioria dos internos para os seus respectivos familiares, e o restante dos internos, nós fizemos um contato com a Fundação Dr. Jesus“, esclareceu.

Vítimas mortas
Durante as buscas, a Polícia Civil localizou o gerente da clínica, Charles Vinícius, em outro imóvel da propriedade.
“Localizamos o gerente, o senhor Charles Vinícius. Demos voz de prisão em flagrante pela prática dos crimes de tortura, cárcere privado e maus-tratos, porque se trata de crime permanente, que não se exaure no tempo“, explicou Marcos Laranjeira.
Dono da clínica é procurado
De acordo com o delegado, o proprietário da clínica, identificado como Moisés, não foi localizado durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão em sua residência, no Cabula.
“Ontem foi cumprido o mandado de busca e apreensão na residência de Moisés, localizada no Cabula, porém ele não estava no local“, explicou.
“A equipe adentrou o imóvel e só tava a genitora dele. Foi apreendido aparelho celular e um computador, mas nós estamos evoluindo na investigação no sentido de representar por medidas cautelares para resolvermos essa situação“, completou.
A Polícia Civil também investiga uma possível ligação do proprietário da clínica com o crime organizado.
Segundo Marcos Laranjeira, tanto Moisés quanto o gerente Charles Vinícius são ex-dependentes químicos.
“O gerente Charles Vinícius e o proprietário da clínica Moisés são ex-viciados em cocaína. Existem informes, nós estamos apurando de forma minuciosa, que o Moisés faz parte, fazia parte da facção Comando Vermelho“, declarou.
A polícia informou que as investigações continuam para esclarecer as mortes de Geovane e Iago, além das denúncias de tortura, maus-tratos, cárcere privado e possível atuação de organização criminosa envolvendo a clínica.
Fonte: A Tarde



