Antes de ser alvo de liquidação extrajudicial, o Banco Master contratou a consultoria especializada de empresas ligadas a três ex-presidentes do BC (Banco Central).
Dados da Receita Federal, obtidos pela CNN, mostram um gasto total de R$ 25,8 milhões com consultorias ligadas a Henrique Meirelles, Gustavo Loyola e Pedro Malan, entre 2022 e 2025. Considerando as deduções de tributos, as empresas receberam, juntas, cerca de R$ 20,2 milhões.
Os montantes pagos se somam a outros diversos feitos pela instituição financeira a escritórios de advocacia antes de ser liquidado pelo Banco Central, em novembro do ano passado.
A CPI do Crime Organizado do Senado aprovou a quebra de sigilo fiscal e bancário do Master, o que permitiu o acesso ao detalhamento de informações repassadas à Receita Federal por meio da DIRF (Declaração do Imposto Retido na Fonte).
A medida mirou ampliar o alcance das apurações do colegiado ao detalhar pagamentos feitos pelo banco a pessoas físicas e jurídicas ligadas a políticos e ex-autoridades do setor econômico e jurídico.
Presidente do BC duas vezes, Loyola prestou serviços ao Master por meio de duas empresas. De 2023 a 2025, o banco contratou a Gustavo Loyola Consultoria Ltda e teve gasto bruto total de R$ 6,7 milhões ao longo de três anos.
Os pagamentos foram realizados em parcelas mensais de R$ 250 mil. Considerando as deduções, a empresa recebeu um total de R$ 6,3 milhões.
À CNN, o economista informou que os valores referem-se a serviços de consultoria econômica prestados entre agosto de 2023 e agosto de 2025. Loyola afirmou que os serviços ao Master “não envolveram nenhum pleito a órgãos e autoridades públicas a respeito da instituição“.
Em 2022 e em 2025, o banco também fez pagamentos à Tendências Consultoria Integrada, que tem Loyola como sócio diretor-presidente. Os valores pagos à empresa somam mais de R$ 430 mil após as deduções.
A empresa informou à CNN que prestou serviços usuais de consultoria econômica e financeira que incluíram “a elaboração de pareceres e laudos técnicos, contendo análises de operações questionadas por órgãos reguladores, laudos econômico-financeiros para ações judiciais e atualizações de valores de créditos adquiridos”.
Loyola presidiu o Banco Central entre 1992 e 1993, na gestão de Itamar Franco, e depois de 1995 a 1997, durante o governo de Fernando Henrique Meirelles.
Outro ex-presidente da autarquia monetária, Henrique Meirelles concentra a maior parte do montante pago pelo Banco Master a ex-chefes do BC. O economista recebeu como pessoa física cerca de R$ 13,4 milhões em pagamentos entre 2024 e 2025. O valor total gasto pelo banco foi de R$ 18,5 milhões, considerando tributos retidos.
Ao todo, Meirelles recebeu dois pagamentos do Master. O primeiro deles ocorreu em 2024, no valor de R$ 9,8 milhões. Já o segundo, em 2025, foi de R$ 8,6 milhões em valores brutos, como mostrou a CNN.
Procurado pela CNN, o ex-chefe da autoridade monetária não se manifestou sobre o montante total recebido pelo ex-banco de Daniel Vorcaro. Sobre o pagamento de R$ 8,6 milhões, Meirelles disse que manteve um “contrato de serviços de consultoria sobre macroeconomia e mercado financeiro com o Banco Master, em caráter opinativo, entre março de 2024 e julho de 2025”.
Meirelles presidiu o BC entre 2003 e 2010 durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e também ocupou o cargo de ministro da Fazenda entre 2013 e 2018, durante o governo de Michel Temer.
Já o ex-presidente do BC entre 1993 e 1995, Pedro Malan, tem atuação como consultor na Mirza e Malan Sociedade de Advogados, que também foi contratada pelo Master. Em 2022, o banco pagou R$ 106,5 mil em valores brutos, assim como os outros, sujeito à retenção de tributos.
O escritório também tem um dos filhos de Malan como sócio, Diogo Malan. À CNN, a Mirza & Malan Advogados informou que atuou em um processo na 2ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro e que o contrato não envolveu a atuação de Pedro Malan.
Além da consultoria de ex-chefes do BC e de escritórios de advocacia, o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, também mantinha uma rede de contatos envolvendo servidores da autoridade monetária atuando como informantes.
Como a CNN mostrou, a última fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, teve entre os alvos dois servidores afastados do BC: Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária. Eles foram alvos de uma auditoria interna do Banco Central que identificou indícios de favorecimento.
Fonte: CNN Brasil



